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Artigo

INESC TEC integra projeto de 18 milhões de euros para descarbonizar a indústria cerâmica

Produzir revestimentos cerâmicos exige muita energia: entre fornos, secadores e outros processos industriais, reduzir as emissões sem comprometer a qualidade do produto é um desafio tecnológico e económico. Mas há solução! O projeto INTELLICER vai usar a inteligência artificial para decidir como, quando e de que fontes deve ser utilizada a energia, de forma a acelerar a descarbonização da indústria cerâmica portuguesa.

22 outubro 2026

A energia representa uma parte significativa dos custos de produção nas empresas dos setores da cerâmica e do vidro. Num contexto de crescente pressão para reduzir emissões e melhorar a competitividade, encontrar formas mais eficientes de produzir tornou-se uma prioridade. O projeto INTELLICER, que reúne dez entidades nacionais, entre empresas e instituições científicas, quer criar um ecossistema de gestão inteligente de energia e recursos, especialmente orientado para a produção de revestimentos cerâmicos em monoporosa. O objetivo é claro: reduzir até 50% as emissões de dióxido de carbono e até 20% os custos energéticos, procurando alcançar até 90% de energia renovável no autoconsumo. Para isso, serão desenvolvidas diferentes tecnologias, desde sistemas de armazenamento e aproveitamento de energias renováveis até à eletrificação de processos industriais, recuperação de calor e utilização de matérias-primas de menor pegada carbónica.

No caso do INESC TEC, vai ser desenvolvido um sistema inteligente que permita integrar e otimizar diferentes recursos energéticos, recorrendo a inteligência artificial e algoritmos de previsão e otimização, conforme explica o investigador Filipe Joel Soares.

“O INESC TEC é responsável pelo sistema inteligente de gestão de energia do projeto, desde a arquitetura aos algoritmos. Usamos modelos de inteligência artificial para prever a produção solar, os consumos da fábrica e os preços da eletricidade. Com base nessas previsões, algoritmos de otimização definem no dia anterior o plano de operação e o mix energético, e depois ajustam-no em tempo real, hora a hora”, avança.

Na prática, segundo o investigador, “a fábrica passa a decidir de forma automática que fonte de energia usar em cada momento: rede, produção solar, baterias ou gás. Também decide quando armazenar e como programar os equipamentos que mais consomem. O objetivo é consumir mais quando há renovável disponível ou a energia é mais barata, sem afetar a produção.”

“Todas as soluções do projeto, incluindo o nosso sistema, vão ser implementadas e validadas em ambiente industrial real, na fábrica da Primus Ceramics, em Aveiro”, acrescenta Filipe Joel Soares.

O desafio não passa apenas por consumir menos, mas sobretudo por consumir melhor. Numa unidade industrial, diferentes equipamentos têm necessidades energéticas específicas, enquanto a disponibilidade de energia renovável, os preços da eletricidade e as condições de operação podem variar ao longo do dia.

Um sistema inteligente poderá ajudar a coordenar estas variáveis, apoiando decisões sobre a utilização de diferentes fontes de energia, o armazenamento e a gestão dos consumos, com o objetivo de reduzir custos e emissões sem comprometer os processos produtivos.

O projeto contempla ainda o desenvolvimento de fornos, atomizadores e secadores multi-vetor, capazes de alternar entre diferentes fontes de energia, soluções de recuperação de calor residual e novas composições de pastas e vidrados, procurando atuar sobre diferentes etapas da produção cerâmica.

 

Para o INESC TEC, a participação representa uma oportunidade de aplicar competências em sistemas inteligentes de energia a um setor industrial com desafios específicos de descarbonização, contribuindo para desenvolver e validar soluções que possam, no futuro, ser utilizadas noutras unidades industriais.

“A cerâmica é um dos setores mais intensivos em energia e muito dependente do gás natural. Este projeto permite-nos levar a investigação em gestão de energia multi-vetor para dentro de uma fábrica e validá-la com quem a vai usar. O sistema vai ser industrializado pela RCSoft, o que abre caminho para chegar a outras empresas do setor”, sublinha o investigador do INESC TEC.

Liderado pela Primus Ceramics, o INTELLICER reúne sete empresas e três entidades do sistema científico e tecnológico, numa colaboração que procura aproximar o desenvolvimento de novas soluções das necessidades concretas da indústria. O projeto arrancou em junho de 2026 e decorrerá até maio de 2029.