INESC TEC põe o desperdício alimentar na prateleira durante três dias e deixa respostas em cima da mesa
Baixar o preço de um alimento próximo do fim da validade pode evitar que acabe no lixo. Mas onde colocar esse produto no supermercado? Na prateleira habitual ou numa área dedicada a descontos? E o que acontece quando os consumidores sabem que, ao final do dia, podem encontrar os mesmos produtos mais baratos numa plataforma de venda de excedentes?
20 outubro 2026
Decisões como estas ajudam a determinar se o alimento é vendido, doado ou desperdiçado. E foi a partir desta perspetiva que investigadores de diferentes instituições internacionais se reuniram no Porto, entre 20 e 22 de setembro, para a terceira edição do Food Waste Workshop, coorganizada pelo INESC TEC e pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).
Ao longo de três dias, preços e descontos, gestão de inventário, comportamento dos consumidores, doação de alimentos, datas de validade, plataformas de combate ao desperdício alimentar, embalagens e logística estiveram entre os temas em discussão.
Uma equação que levanta uma questão: como podem dados, modelos matemáticos e ferramentas de apoio à decisão ajudar os diferentes intervenientes da cadeia alimentar a reduzir o desperdício e, ao mesmo tempo, conciliar esse objetivo com as decisões dos consumidores e com as necessidades logísticas e económicas das empresas?
“O workshop mostrou uma comunidade muito mobilizada em torno do desperdício alimentar, mas também muito diversa na forma como aborda o problema. Essa combinação gerou discussões muito ricas e abriu espaço para novas ideias e possíveis colaborações entre investigadores e profissionais”, explica Sara Martins, investigadora do INESC TEC.
Para o INESC TEC, que coorganizou o encontro com a FEUP, o tema não se esgota na organização do workshop. A redução do desperdício alimentar vem sendo objeto de investigação. Sara Martins esteve também envolvida no projeto BeFresh, onde o INESC TEC estudou outro fator com impacto no desperdício: o MLOR (Minimum Life On Receipt), critério utilizado para definir o período mínimo de vida útil que um produto deve ter quando é recebido por um retalhista.
A investigação analisou de que forma uma maior flexibilidade deste critério pode contribuir para reduzir o desperdício ao longo da cadeia, sem comprometer os restantes requisitos associados à comercialização dos alimentos. Pouco tempo depois do workshop no Porto, a tese de doutoramento da investigadora do INESC TEC Mariana Sousa, desenvolvida no âmbito do BeFresh, foi distinguida no EWG Retail Operations Annual Meeting, evento que aconteceu em Lisboa e onde se debateram os desafios atuais do setor retalhista.
Voltando ao Porto, Sara Martins levou ao encontro o artigo An Analytical Model for Display Strategies in Perishable Retail. Neste trabalho, como co-autora, procurou perceber como a localização dos produtos perecíveis com desconto pode influenciar simultaneamente as vendas e o desperdício alimentar.
Cada opção do retalhista influencia a facilidade com que os consumidores encontram esses produtos, a possibilidade de realizarem compras por impulso ou de substituírem um produto a preço normal por outro com desconto
“O trabalho mostra que não existe uma única estratégia de exposição que maximize o lucro em todos os contextos. Além disso, a estratégia que minimiza o desperdício alimentar nem sempre coincide com a que maximiza o lucro, o que mostra a importância de considerar diferentes objetivos e características da operação na tomada de decisão”, remata a investigadora.
Esta é a terceira edição deste encontro. A primeira, organizada pela Universidade Técnica de Munique, aconteceu em 2024 e, no ano seguinte, o evento migrou para a Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos da América. Entre profissionais do setor e investigadores, passaram pelo Porto 42 especialistas para aprofundar o debate sobre o desperdício alimentar nos sistemas alimentares.